Pediram-me para falar sobre estar só
e de imediato esse tema isolado
se sentiu integrado numa turba de questões
Porque falei afinal sobre isto tão pouco?
Teria Prometeu escrito sobre a águia
se pudesse ter escrito sobre o fogo?
Teria Midas escrito sobre o ouro
se pudesse ter escrito sobre tudo o resto
e tudo o resto é que fosse precioso?
Talvez seja tarde
Talvez fosse preciso fazer o quarto de dormir
recuar um quarto de século
e reaprender a fundir o á-bê-cê do leito
com o bê-á-bá da margem –
reaprender a ser poeta
Talvez fosse preciso ir a montante
achar a ferradura de Safo
e não a deixar descansar
Ou então ser uma espécie de tigre-de-sarabanda
assumindo o rugir do último espécime
do cáspio ou de java
Mas se tivesse escrito sobre o pedro
não teria sido o primeiro e único
a atirar-se a mim?
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