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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Se este poema fosse um fóssil de música

a a’ a’’ a’’’
quantas sílabas métricas terá um grito?
quanto se pode ler da história da vida
no mineral do verbo que se infiltra
nas partes que, mais duras, decaem
nela mais devagar? se a planta
em desespero se torna
carnívora, não pode
a múzica ser imagem?
sou uma pessoa, sou poço
de contradições, de tradições,
de traições, de iões, autor e leitor
preso no elevador, içado de um sono
de morte pelo amor presente de um café.

Se este poema fosse um campo agrícola

Tanto é o profundo sob o rosto teu
Que el’ se tornou pequena superfície,

Mercearia onde vou vender crendice,
Batatas e maçãs, da terra, e do céu.

A despeito de tudo e da poesia,
Regressar à poesya, à produção,

Estrumar o teu cabelo, pôr na mão
Da chuva o teu futuro de ucharia,

Ceifar e semear dentes, espantar
As bruxas com um homem feito de alho

Que sabe que as tuas linhas do sorriso
E do olhar só se encontram no retalho.

O rosto é um vício, um sulco até à fé.
Fumemos um cigarro.

Se este poema fosse uma batalha

Tanta vez sobre a areia do sonetto

se voltou a dizer que ou ele ou ela
Foram fluxo e refluxo de beleza,

tanta vez outro assunto foi tratado
Em tal fôrma de amor em reflexão,
também eu vou lançar minha investida,
Quem sabe se entre merda, perda e oiro,

não acerto no porta-coração.
Urgente? sim,
como o deserto do Gobi precisa
Que himalaias seja nome de planície,

Como um oásis de rima nunca é
(por haver rima ou rima não a ver)

Uma ilha de açúcar no café.

Se este poema fosse uma jogada de bólingue

Só o oleiro justiça faz ao mundo

por suas próprias mãos:
é preciso meter

                              as mãos na massa
caligráfica, no p(r)elo,
fazer Ws como Ingres desenhava os cus,

manumitir o esdrúxulo animal IÍ
da palavra friíssima
(as mãos de Michelangeli e de Edward Scissorhands…),
ainda que não valha

a pena
dourar as solidões,
já que a rima depende da maneira
como a punheta diz o W.
Entornemos um café.

(paronímia)

As gaivotas estão a ocupar o Porto, cidade aberta. Já ocuparam aquele nicho de mercado que as pombas lentamente construíram no coração das velhinhas de jardim. Já ocuparam os ninhos que desde sempre os cucos armaram nos relógios de parede. E ocuparam também o posto das cegonhas que trazem meninos e meninas da vila de Paris. Os artistas do lugar estão, contudo, a lutar contra tal hegemonia. Já criaram a andouraine e a melrure, e estão agora a trabalhar na pardalette. Por baixo, a cidade, barroca nos ruídos e movimentos que se fundem e confundem,                               dança.


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.



(só me sai eu mesmo)

Sim, serei duque. Mas não com título de terra, antes duque de Schistocerca Gregaria, ou então nobre de tão-somente uma derrota: duque de alcácer-quibir. Sim, sou eu quem decide as estátuas da cidade, as imagens dos altares, os cartazes sobre os muros – por todo o lado estátuas do Camilo, dos dois Diogos, do outro Pedro )( Sim, fui eu que ordenei uma praga de verbos, destinada a mastigar o mundo inteiro e a, no pouco que restar, te reconhecer.


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.

(estrela de mel)

Muda de amor, sim. Mas não como quem muda de camisa, nem como esses restaurantes chineses que, todos, de repente, se tornaram japoneses. Muda de amor como a agulha de uma bússola raramente se inicia no seu ponto final. Muda de amor como a nave sucumbindo ante a camisa-de-forças marcianas, ou como a aurora,                       que após ter sido crismada pelo príncipe, se passou a chamar boreal. Muda de amor, sim.) Mas como quem faz, de um direito de esquerda, um gancho de boxeur. Muda de amor como aquele condutor que o GPS converte em, do mundo, um Teseu, ou como muda o sangue feminino à passagem dos meses, à passagem da uberdade e das traições da idade.


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.

(impressão)

O limoeiro do meu quintal é semipresidencial: no inverno ele é Belém, no verão, São Bento. No inverno ele acolhe a embaixada dos três reimosos magos: a chuva, o frio e o vento. No verão é porta aberta para o assunto que se segue: as estações suportáveis são muros entre cor de Píramo e cor de Tisbe – qual graffiti de amora qual quê? Os frutos fazem de gémeos melhor do que atrizes de telenovela, mas deixam-se abrir como se fossem cadernos de inédito artista, in-quarto, in-octavo (a esmo, nunca a ismo)…                                        Mandarei para o Tribunal Constitucional esta proposta de lei de taliãoº que diz que o limoeiro apenas dá possibilidades de limão.


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(apodyopsis, apodioxis)

Agora, já há músicos que escrevem para o vento. Mas, como acontece com qualquer instrumento, também nele se pode tocar Bach.)                      O vento é uma escrita, como todas as escritas transparente, que se mete nas ilusões qual piolho por costura. É só catá-lo: que nas árvores as folhasª fazem cheerleading às flores e aos frutos, que as nuvens são djs do disco solar, que o norte é uma preposição magnética (norte ponticello). O vento muda estados de coisas, de sítios, de emergências, coisas tão simples como uma letra que noutra se perde, e já o espírito do vento XVI é um adolescente que pergunta a outro: por que manténs a roupa absurda sobre o corpo? Proselitismo? Não, isto chama-se poeselitismo. Da janela do meu quarto, vejo um baloiço tão sozinho de fé e de infância que, quando baloiça, enferruja a brisa.


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.

(canção de tear)

Era uma vez um homem que queria fazer amor com uma mulher inacessível (p’ra sempre casta, com voto de frigidez, não-me-toques-que-me-destemperas). Mas o homem gostava tanto do lado solar da vida que, em vez de violar essa mulher, a seduziu. É a lenda que explica que, durante algumas décadas, eles se tivessem dedicado a escrever no corpo um do outro (tatuagens para quê?).                 Isso implicou uma certa perícia de se entre-colherem cogumelos e a ciência imensa de se fazerem ora rio, ora nuvem, ora lençol freático, no ciclo de juntos permanecerem. Aprenderam a gostar do seu par com a orientação concretíssima de quem prefere Moscovo ou São Petersburgo, vinho verde ou vinho maduro. Um dia ele partiu (morto até um dia, tão distante a tabacaria, um tapete voador). Longe da vista, longe do coração? Não estão a falar do sangue, pois não?


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.

(roubar esse fogo)

Era uma vez um rapaz e uma rapariga que se queriam encontrar no mesmo lugar. Para tal, marcaram encontro numa biblioteca e num cerejal. Desde essa estranha reunião, outros rapazes e outras raparigas passaram a fazer cerimónia dos seus corpos.) Por eles o tempo passou ambíguo, sofrendo cada um o que cada um queria sofrer: a fêmea contando cinquenta e nove grous na sua paisagem modificada, ele igualmente sensível à evidência pernalta mas mais modesto na celsitude dos seus eternos quinze anos.              Entre lágrimas que ora são bugigangas valiosas ora fios-do-mais-intenso-prumo e ternuras que, por serem perecíveis, também são biodegradáveis, eles aguentaram até ao verme do início se revelar verme do fim.


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.

(alla breve)

Eu e a sobrinha correndo num campo florido. Florido de quê? Não sabemos. De tal modo corremos que as essências )girassóis, papoilas, hidrângeas( não conseguem conservar suas quintessências. Eu torno-me de novo criança. Ela permanece eterna. E é bem mais fácil para ela ser tanto do que para mim parecer tão pouco. Corremos neste poema ou noutro?

(places to visit before you die)

Cai nevoeiro sobre a cidade do porto: é um tira-olhos que põe olhos a quem quer continuar a ver. Os caçadores de imagens saem para a rua. Torres cortadas ao meio, o rio em paisagem onomatopaica, e diz-se que vão fechar o mercado do bolhão, é uma pena, era o único sítio naquele sítio onde se podia comprar maçãs de Adão. Sentado em cima de um cato, eu aguardo com linha e anzol. Parece-vos demasiado recato? Vereis os meus poemas-tordos, os meus poemas-lebres, os meus poemas-javalis.º