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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

trabalhos oficinais

são carris por onde viajam gestos
são flechas de ternura
são as mãos

talvez herança de um Tio malabarista
de tal modo por elas passam tantos fazeres
por vezes baús às vezes deltas
mas o golpe é tanto e a asa tal
dir-se-ia que o fio do braço segura a-penas
o papel do papagaio

expressão

é como tirar um penso
se quiser arrancar
do seu rosto o sorriso
faça-o depressa e de uma vez Só

assim dói menos e não desfigura

assimetria (ginger e fred)

os olhos do amado
fazem-se sentir como se fossem
as patas de um manso gato
percorrem-nos almofadados
meticulosos
e frios
como convém a tudo aquilo
que connosco não se confunde

de repente
uma queda torna-se urgente
e os olhos caem
não enfáticos (nem dramáticos)
mas simples como berlindes
que não sabem fazer mais que cair
e são esses estalidos
de um sapateado cantochão
(esses tap tap              tap)
que sentimos como se fossem unhas
afiadas e colorIdas
a rasgaram-nos a solidão

T3 (ou o bálsamo)

    o tear do penteado, falso a-larme de uma brisa
           ou as hélices do olhar, mansas dróseras
         um beijo
      um queixo qual instância
  um quase rebanho de mãos, valsas em balsas
coisas assim sem importância
como arraiolos feitos de uvas
ou o gesto artesanal
de afagar em estrangeiro
       ainda o funil do umbigo, gargalispo das bermudas
         por Fim o sexo, o virgem choro
a imprecisão

V

“… comme une table emportée par l’inondation”
Benjamin Péret

as minhas pernas
e as tuas pernas
quando em carpintaria de sexo
são as pernas de uma mera mesa
apenas isso
uma mesa
coisa muito melo neto
muito madeira
certeza

não obstante
(quem ainda o diz?)
o número nosso
é o número cinco
os dedos de cada mão
e os dedos de cada pé
os orifícios do rosto
os lustros que damos
à guerra e ao coração

assim
se uma vaga inundação
ameaçar a mesa levar
até um porto inseguro
selvagem
(santo)
não há razão para medo nem espanto

seremos salvos por uma perna obstante
uma perna-não
que entre nós se atrapalhe
que nos atrase
que nos fixe
seremos salvos
pela quinta coluna
da nossa Velhice

v.i.p.

tem o seu Quê de misterioso
por graça há mesmo quem lhe chame
o monstro de Whatness

às vezes lá surge, furtivo
na imagem de um poema
mas é tudo apócrifo
tudo folclore literário

de facto, ele existe!
só que persiste em ludibriar
os paparazzi da palavra

argumento ontológico (e obsceno)

finalmente
uma oportunidade justa
de ab-usar o tão usado Tu
pois só tu me podes confirmar
se existes só intenso ou também oposto
se tens (por tanto)
realidade

repara
mesmo no pensamento com mais secura
(no mais grave)
medra sem medo uma cana
que pressupõe maior doçura
do que tudo quanto se possa pensar

mas o pensamento não é o colmo do ser
(isso é sonhar)

inconformado
racho (com dor) essa evidência
pois quando o açúcar é muito
há de algum (insolúvel)
ficar depositado no profundo da existência
e se assim não é
há que dizer então
que o pensamento pensa castrado

em fim
sendo eu tão rouco e Tu
(por tão pouco)
ab-surdo
daqui se entende que existes a-sim-a-sim