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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Sinais de luta

Algo de estranho se passou aqui

Dizer que cada corpo foi vivido
por algo tão extenso como uma galáxia
é tudo menos uma hipérbole

Mas assim como nunca é o mordomo
quem em seis dias cria a perfeição de um crime
não se atribua ao que é costume

o que de muito estranho se passou aqui 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Paveia

Tanto ginásio
ó astro
p’ra te ser permitido não mais do que um beijo
através da tragédia das nuvens

mas (o ginásio) foi preciso
a aberta
fixou-se na memória de um padecedor
como a agricultura na história de todos

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Fake news

Uma lua vermelha há de ser
uma coisa bonita
sobretudo quando ela vai ser

a mais bonita lua vermelha
do século todo
que há de correr

Mas não o há de ser assim
quando aparece como promoção
a não perder no relógio da vida

Há de ser lua
há de ser vermelha
e há de ser bonita

a coisa qualquer
que por acaso
sem se prever

se detenha
única em seu silêncio
entre mim e outro ser 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Outras paragens

A limpeza
a maquiagem
e sobretudo o peso –
– estava tudo assegurado
(pois se a idade não perdoa
o brio faz esquecer um bocado)

não lhes restava mais nada
a não ser vestirem-se de branco
e dizerem que estavam inocentes
tivessem os homens feito isto
ou tivessem os homens feito aquilo


estou a falar, é claro, das paisagens

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

(paronímia)

As gaivotas estão a ocupar o Porto, cidade aberta. Já ocuparam aquele nicho de mercado que as pombas lentamente construíram no coração das velhinhas de jardim. Já ocuparam os ninhos que desde sempre os cucos armaram nos relógios de parede. E ocuparam também o posto das cegonhas que trazem meninos e meninas da vila de Paris. Os artistas do lugar estão, contudo, a lutar contra tal hegemonia. Já criaram a andouraine e a melrure, e estão agora a trabalhar na pardalette. Por baixo, a cidade, barroca nos ruídos e movimentos que se fundem e confundem,                               dança.


*O presente texto contém uma "iluminação" que não é possível reproduzir no âmbito deste blogue.



conade(e)p

eu e tu:
o e é sempre copulativo

espero que o meu leitor
(especialmente se for argentino)
não pense que eu confundo
lirismo com tragédia

só me parece terrivelmente político
dizer que alguém só pode desaparecer
dentro do corpo da sua amante

no cinema
o Pedro já o disse
precisamente quando falava com ela

porque ele sabe
que para quem prefere o johnny depp
a via para o interior do amor
não é feita de chocolate
mas de uma merda quase literal

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

trabalhos oficinais

são carris por onde viajam gestos
são flechas de ternura
são as mãos

talvez herança de um Tio malabarista
de tal modo por elas passam tantos fazeres
por vezes baús às vezes deltas
mas o golpe é tanto e a asa tal
dir-se-ia que o fio do braço segura a-penas
o papel do papagaio

expressão

é como tirar um penso
se quiser arrancar
do seu rosto o sorriso
faça-o depressa e de uma vez Só

assim dói menos e não desfigura

assimetria (ginger e fred)

os olhos do amado
fazem-se sentir como se fossem
as patas de um manso gato
percorrem-nos almofadados
meticulosos
e frios
como convém a tudo aquilo
que connosco não se confunde

de repente
uma queda torna-se urgente
e os olhos caem
não enfáticos (nem dramáticos)
mas simples como berlindes
que não sabem fazer mais que cair
e são esses estalidos
de um sapateado cantochão
(esses tap tap              tap)
que sentimos como se fossem unhas
afiadas e colorIdas
a rasgaram-nos a solidão