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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Hipólito, Delfim

Há, pois, que ousar falar do gosto da questão
do tom que usou Hipólito com seu Delfim:
"não me deixes (imploro-te) fora de mim
de toda esta atrelagem faz afirmação 
sê manada de cascos danando-me em chão
sê sopro violento, arado verbatim
sulcando o que é já sulco (lavra por palavra)
sê qualquer outro horror, mas efémero – não,"

Delfim com seu Hipólito usou modos tais
que nenhum verso pode fazer jus ao verbo:
"serei em tua areia arriba que derrui
deixando em suspensão alas colaterais
serei o nome Páscoa em língua rapa nui
serei qualquer horror, efémero – jamais"

sábado, 2 de julho de 2022

Uma enorme ilusão

Não serei eu Os pés soam lá fora
Pelo menos sobre isso não me engano
Continuo a fingir tocar piano
Pois sei que o passo em força se verteu

Não serei eu a ver É a vez do inglês 
Saber porque o passante se demora
Porque o passado cresce de hora em hora
Quando tudo estaria por fazer

Não serei eu a ver em sério enlace
Bodas de solidão Se não revês
Acabas por cair em distração
Se ao menos a passagem terminasse

Não serei eu a ver em sério enlace
Estorvo algum

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Carta a um jovem poeta

Gosto muito da palavra ninharia
Gosto de pensar que é um lar
para o guarda-rios e a cotovia
esses seres tão colossais
no seu desdém pelo intricado

Também gosto da palavra bagatela
com suas bagas que sabem tirar
o vermelho da boca da noite
Mas desta palavra gosto com discrição
pela outra tenho um fraquinho

Diz-se que os poetas são estúpidos
porque falam de flores e de pássaros
quando no mundo algo se passa
de exatamente intolerável

Mas os poetas apenas falam
daquilo que lhes coube em tragédia
a partir da palavra ninharia
a partir da palavra bagatela
 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Se este poema fosse um fóssil de música

a a’ a’’ a’’’
quantas sílabas métricas terá um grito?
quanto se pode ler da história da vida
no mineral do verbo que se infiltra
nas partes que, mais duras, decaem
nela mais devagar? se a planta
em desespero se torna
carnívora, não pode
a múzica ser imagem?
sou uma pessoa, sou poço
de contradições, de tradições,
de traições, de iões, autor e leitor
preso no elevador, içado de um sono
de morte pelo amor presente de um café.

Se este poema fosse um campo agrícola

Tanto é o profundo sob o rosto teu
Que el’ se tornou pequena superfície,

Mercearia onde vou vender crendice,
Batatas e maçãs, da terra, e do céu.

A despeito de tudo e da poesia,
Regressar à poesya, à produção,

Estrumar o teu cabelo, pôr na mão
Da chuva o teu futuro de ucharia,

Ceifar e semear dentes, espantar
As bruxas com um homem feito de alho

Que sabe que as tuas linhas do sorriso
E do olhar só se encontram no retalho.

O rosto é um vício, um sulco até à fé.
Fumemos um cigarro.

Se este poema fosse uma batalha

Tanta vez sobre a areia do sonetto

se voltou a dizer que ou ele ou ela
Foram fluxo e refluxo de beleza,

tanta vez outro assunto foi tratado
Em tal fôrma de amor em reflexão,
também eu vou lançar minha investida,
Quem sabe se entre merda, perda e oiro,

não acerto no porta-coração.
Urgente? sim,
como o deserto do Gobi precisa
Que himalaias seja nome de planície,

Como um oásis de rima nunca é
(por haver rima ou rima não a ver)

Uma ilha de açúcar no café.

Se este poema fosse uma jogada de bólingue

Só o oleiro justiça faz ao mundo

por suas próprias mãos:
é preciso meter

                              as mãos na massa
caligráfica, no p(r)elo,
fazer Ws como Ingres desenhava os cus,

manumitir o esdrúxulo animal IÍ
da palavra friíssima
(as mãos de Michelangeli e de Edward Scissorhands…),
ainda que não valha

a pena
dourar as solidões,
já que a rima depende da maneira
como a punheta diz o W.
Entornemos um café.

gam

o meu irmão tem um bebé com vários choros
o meu irmão tornou-se
her-me-neu-ta
um n no céu da boca?
um ó com boca oval?
acabou-se a doçura da vida do meu irmão
agora tem sal

há vários tipos de destino:
pirata
negreiro
de guerra
mercante
diz-se que o amor de pai
tem uma inquietação de moby dick

floema

eu
que podia escrever um mensageiro das estrelas
por cada ser que desejei sem atingir
hei de um dia
mudar-me para sempre em membracídeo
(e para sempre ser então
the next big thing)

todo aquele que tenta agarrar a existência
com pauzinhos
sabe quão difícil é
manter
a fleuma da peónia
sou um poeta japonês
na selva amazónia

dignitas

sempre quis ter uma casa
na aldeia
p’ra poder comer castanhas a olhar a cor das árvores
a minha prof de ciências
tinha uma
mas queria ter casa em istambul
p’ra poder tomar chá a olhar o bósforo

diz-se
(zzzzzzz)
que daqui a cem anos ninguém morre
lamentável:
porque é que eu não nasci ontem?
(houston, houston
we have a problem)

sábado, 2 de setembro de 2017

era em zero criança só
que mãos suas cem viu e quis
para que é que saber serviam
e das fricções cem

cem cintilações
fez acontecer
foi antes da limpeza azeda
do de ordem ensinado anseio

cintilavam então centelhas
mero meramente
sua revelando

essência tangente
criança a no vazio quarto
ser era e mudança