terça-feira, 29 de setembro de 2026

Kintsugi

Foi-se embora um elo
do meu castelo amarelo
Orgulho de lego

OU ROubo uma peça
ao Fórmula (menos) Um
(é carmim? que importa)

OU ROo a laranja
(é orgânica? que importa)
em busca de um gomo

OU ROgo ao sabão
que me passe a sua bola
(não dura? que importa)

OU ROmpo a palavra
(não tem sentido? que importa)
e saco uma sílaba

Tornou-se mais belo
o meu castelo amarelo
Pudor de quimera

Qual o nome?

Ó tiê, tem teu nome pulsação?
Bate, bate, a partir de um coração?
Se te prendem num traço, uma ferida
em ti se abre? És só cor, quase borrão?
Quando voas, acertas toda a vida
no sentido de haver circulação?
Quando cantas na língua adormecida,
pões rubor na toada da poesia?

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

giga

Como um cigano que ninguém quer conhecer
como um cigano a fazer xeque-mate
como um gentleman que acabou de se perder
por entre o povo cigano
escolho a palavra
luminoso

E espero que a sua extrema elegância
que é como quem diz o seu rigor e rebeldia
para sempre nos livre
do belo
do bom
e do verdadeiro


Como um velho pintor do norte
como o corpo imaculado de Élis
encontrado quando a noiva
já não estava à janela da oportunidade
escolho o valor
vida

E espero que a sua preciosidade
que é como quem diz o brilho
que paira acima de qualquer preço
para sempre nos livre
da urgência
de esperar

sarabanda

Pediram-me para falar sobre estar só
e de imediato esse tema isolado
se sentiu integrado numa turba de questões

Porque falei afinal sobre isto tão pouco?
Teria Prometeu escrito sobre a águia
se pudesse ter escrito sobre o fogo?

Teria Midas escrito sobre o ouro
se pudesse ter escrito sobre tudo o resto
e tudo o resto é que fosse precioso?

Talvez seja tarde
Talvez fosse preciso fazer o quarto de dormir
recuar um quarto de século

e reaprender a fundir o á-bê-cê do leito
com o bê-á-bá da margem –
reaprender a ser poeta

Talvez fosse preciso ir a montante
achar a ferradura de Safo
e não a deixar descansar

Ou então ser uma espécie de tigre-de-sarabanda
assumindo o rugir do último espécime
do cáspio ou de java

Mas se tivesse escrito sobre o pedro
não teria sido o primeiro e único
a atirar-se a mim?

prelúdio

Sou uma mulher

Como todos os homens
livres onde quer que vivam
sou uma mulher
que faz a barba com a navalha de Ockham
Se tudo o que tem barbas
estivesse ainda à flor da pele
nada precisaria de ser colhido –
não haveria buquês de bigodes
no cantochão das barbearias
Mas os homens são homens
apenas porque se esquecem
de que sempre foram mulheres
e de que é mais fácil chegar a conhecer
quando
em vez de variar
uma incógnita insiste
Pois a navalha
mesmo sendo de Ockham
quando aflora o pescoço
ameaça o sangue

Exatamente como o pensamento

segunda-feira, 16 de junho de 2025

matelotage

meu amigo de cantiga
meu amor de canção
espera ainda uns instantes
verás a dor tomar
novas formas – delirantes
fará de nós piratas
fará de nós eremitas
a dor que tudo muda
(espera ainda uns instantes)
fará de nós gigantes

sábado, 5 de abril de 2025

Aposta de Etty Hillesum

Não sei se não estará tudo a ser levado
num comboio 
para Auschwitz 
Não sei se 
desde sempre
não estará tudo a ser levado num comboio para Auschwitz

um papel
um inseto
o sorriso 

Terrena tragédia ou talvez com mais som e fúria
com mais juízo 
se deva dizer terrestre tragédia
Talvez esteja tudo desde sempre
desde o homem primeiro
a ser levado por uma diligência até ao inferno

um coral
o ritmo
uma criança

Talvez se possa salvar tudo
alguma coisa 
devolvendo-a ao mundo por uma janela aberta na entropia
Não sei 
mas também não sei por que outro motivo
se haveria de fazer poesia

a Palestina 
uma pedra
um céu

domingo, 2 de março de 2025

Ala do(s) solitário(s)

Ala, que se fez tarde e
tudo se pôs a pôr –
sol, lua, causa, rei

                            de um lado outro
                            chamam por mim
                           (só que é ninguém)

seja amigo, inimigo
vanguarda, retaguarda
ala esquerda, direita
                            de um lado outro
                            alguém me chama
                            só que é ninguém
ao quadrado se perde o passaporte
a cabeça, uma nuvem Fabergé
ao quadrado se perde tempo e crença
(se é potência, calor do corpo – ao cubo)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

"Selva Ideia"

Sedutor é supor que o salso aedo
Descobriu, em Lugar, comum ideia
E desta arte figura ousou mais cedo
Passando ainda além do que nomeia
(andam tigres, leões, no pensamento...)

Indo eu no caminho a mim sem medo
A escolher tornaria a Citereia
Inda que isso de novo me custasse
A podre paz que nunca terminasse
(andam cavalos, águias, na carne...)

sábado, 2 de novembro de 2024

elginbtqia+

ele agora desde sempre
ao Benim pertence
sua brônzea consistência 
serve de evidência 
em tal caso controverso
mas eis que agora para sempre é parte
de um Partenão que o todo reivindica
tanta memória há nessa união marmórea
nesse fatal futuro, que ele diz
que o seu discurso de outra língua é alvo
– e eu próprio cada vez mais museu de mim