quarta-feira, 2 de setembro de 2026

giga

Como um cigano que ninguém quer conhecer
como um cigano a fazer xeque-mate
como um gentleman que acabou de se perder
por entre o povo cigano
escolho a palavra
luminoso

E espero que a sua extrema elegância
que é como quem diz o seu rigor e rebeldia
para sempre nos livre
do belo
do bom
e do verdadeiro


Como um velho pintor do norte
como o corpo imaculado de Élis
encontrado quando a noiva
já não estava à janela da oportunidade
escolho o valor
vida

E espero que a sua preciosidade
que é como quem diz o brilho
que paira acima de qualquer preço
para sempre nos livre
da urgência
de esperar

sarabanda

Pediram-me para falar sobre estar só
e de imediato esse tema isolado
se sentiu integrado numa turba de questões

Porque falei afinal sobre isto tão pouco?
Teria Prometeu escrito sobre a águia
se pudesse ter escrito sobre o fogo?

Teria Midas escrito sobre o ouro
se pudesse ter escrito sobre tudo o resto
e tudo o resto é que fosse precioso?

Talvez seja tarde
Talvez fosse preciso fazer o quarto de dormir
recuar um quarto de século

e reaprender a fundir o á-bê-cê do leito
com o bê-á-bá da margem –
reaprender a ser poeta

Talvez fosse preciso ir a montante
achar a ferradura de Safo
e não a deixar descansar

Ou então ser uma espécie de tigre-de-sarabanda
assumindo o rugir do último espécime
do cáspio ou de java

Mas se tivesse escrito sobre o pedro
não teria sido o primeiro e único
a atirar-se a mim?

prelúdio

Sou uma mulher

Como todos os homens
livres onde quer que vivam
sou uma mulher
que faz a barba com a navalha de Ockham
Se tudo o que tem barbas
estivesse ainda à flor da pele
nada precisaria de ser colhido –
não haveria buquês de bigodes
no cantochão das barbearias
Mas os homens são homens
apenas porque se esquecem
de que sempre foram mulheres
e de que é mais fácil chegar a conhecer
quando
em vez de variar
uma incógnita insiste
Pois a navalha
mesmo sendo de Ockham
quando aflora o pescoço
ameaça o sangue

Exatamente como o pensamento

segunda-feira, 16 de junho de 2025

matelotage

meu amigo de cantiga
meu amor de canção
espera ainda uns instantes
verás a dor tomar
novas formas – delirantes
fará de nós piratas
fará de nós eremitas
a dor que tudo muda
(espera ainda uns instantes)
fará de nós gigantes

sábado, 5 de abril de 2025

Aposta de Etty Hillesum

Não sei se não estará tudo a ser levado
num comboio 
para Auschwitz 
Não sei se 
desde sempre
não estará tudo a ser levado num comboio para Auschwitz

um papel
um inseto
o sorriso 

Terrena tragédia ou talvez com mais som e fúria
com mais juízo 
se deva dizer terrestre tragédia
Talvez esteja tudo desde sempre
desde o homem primeiro
a ser levado por uma diligência até ao inferno

um coral
o ritmo
uma criança

Talvez se possa salvar tudo
alguma coisa 
devolvendo-a ao mundo por uma janela aberta na entropia
Não sei 
mas também não sei por que outro motivo
se haveria de fazer poesia

a Palestina 
uma pedra
um céu

domingo, 2 de março de 2025

Ala do(s) solitário(s)

Ala, que se fez tarde e
tudo se pôs a pôr –
sol, lua, causa, rei

                            de um lado outro
                            chamam por mim
                           (só que é ninguém)

seja amigo, inimigo
vanguarda, retaguarda
ala esquerda, direita
                            de um lado outro
                            alguém me chama
                            só que é ninguém
ao quadrado se perde o passaporte
a cabeça, uma nuvem Fabergé
ao quadrado se perde tempo e crença
(se é potência, calor do corpo – ao cubo)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

"Selva Ideia"

Sedutor é supor que o salso aedo
Descobriu, em Lugar, comum ideia
E desta arte figura ousou mais cedo
Passando ainda além do que nomeia
(andam tigres, leões, no pensamento...)

Indo eu no caminho a mim sem medo
A escolher tornaria a Citereia
Inda que isso de novo me custasse
A podre paz que nunca terminasse
(andam cavalos, águias, na carne...)

sábado, 2 de novembro de 2024

elginbtqia+

ele agora desde sempre
ao Benim pertence
sua brônzea consistência 
serve de evidência 
em tal caso controverso
mas eis que agora para sempre é parte
de um Partenão que o todo reivindica
tanta memória há nessa união marmórea
nesse fatal futuro, que ele diz
que o seu discurso de outra língua é alvo
– e eu próprio cada vez mais museu de mim

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Hipólito, Delfim

Há, pois, que ousar falar do gosto da questão
do tom que usou Hipólito com seu Delfim:
"não me deixes (imploro-te) fora de mim
de toda esta atrelagem faz afirmação 
sê manada de cascos danando-me em chão
sê sopro violento, arado verbatim
sulcando o que é já sulco (lavra por palavra)
sê qualquer outro horror, mas efémero – não,"

Delfim com seu Hipólito usou modos tais
que nenhum verso pode fazer jus ao verbo:
"serei em tua areia arriba que derrui
deixando em suspensão alas colaterais
serei o nome Páscoa em língua rapa nui
serei qualquer horror, efémero – jamais"

sábado, 14 de setembro de 2024

futuro da doçura

fatalmente, o que agora acho bonito
é que as tabernas e estalagens de Tiblíssi
tenham sido o museu de Pirosmani
e muito disso tenha sido destruído
pois não caíra ainda abaixo do valor
de uma sopa ou de um copo de aguardente
 
de igual modo, no rosto de Montgomery Clift
acho bonito o dito que o desfigurou

de igual modo, no açúcar em devir
acho bonito o inconcebível caramelo
acho bonito que essas ilhas que não querem
sequer ter cotação para arquipélago 
em lava aceitem dissolver-se por completo
aceitando a mais funda aceitação 

terça-feira, 28 de maio de 2024

quando quiser

quero viver dentro do corpo
de uma baleia de desenho inanimado
ser recebido como um papa
estar entre ácidos
como no Conrad das Maldivas
ser Alexandre pela Safo conquistado

quero ser glúten que da pança
subtrai a calma
dormir no inverso do relento
como quem voa num tapete de Beiriz
quero ser rima miserável 
quero ser alma

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

oliveira, cavalo

o conceito de deus
tão simples e cantável 
mas não o suficiente para superar
a elegância da árvore
que ainda não exista (ou que já não),
a erudição 
com que ela a um dado tempo
não dá,

conceito claro não preclaro o suficiente 
para poder ser comparado
com o animal
que preferindo não saber
sabe querer
quer já não aja (quer ainda não)

sábado, 27 de janeiro de 2024

anno animae

ah!
bastou a boca aberta em seu maior diâmetro
e logo o espanto fez da opacidade
uma casca que sai sem descascar

declinámos o puro desejar
a pura fome, o medo, a repugnância
cada vez mais ineptos para ver
que nada saberia fazer ver
além do raio X