sábado, 27 de janeiro de 2024

anno animae

ah!
bastou a boca aberta em seu maior diâmetro
e logo o espanto fez da opacidade
uma casca que sai sem descascar

declinámos o puro desejar
a pura fome, o medo, a repugnância
cada vez mais ineptos para ver
que nada saberia fazer ver
além do raio X

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

caça ao leão com arco

como fugir da dispersão causada
pelo marasmo, pelo ramerrão,
pelo desplante face ao património
sincero, fresco e tão feroz da infância?

há de esse fruto ser deitado fora
com todo o pelo em que se descoroa?

lei há nenhuma em terras vegetais
que em terras animais não possa ser
a liberdade apenas entrevista
nas lendas sobre as terras minerais

como caçar a dispersão erguida
na arquitetura da imaginação
– o firme instante canopial?

a mera brisa, nada mais que a brisa,
será bastante para retirar
a um rei da selva quase literal
todos os dentes com que se define?

sábado, 14 de outubro de 2023

norte, frio, agreste

nem perto de quem fala
nem perto de quem ouve
também não de quem 'screve
nem sequer de quem lê
é o calcanhar de Aquiles (sobre quê)

falando sobre o assunto que há no assunto
digamos que ele é demasiado grave
e que é demonstrativo em demasia
(descamba fatalmente em afasia)

ah! fosse ele esdrúxulo
um Pátroclo proparoxítono
algo ridículo como o amor
e entre quem fala e quem ouve
entre quem 'screve e quem lê
entre mim e ti
como se fosse vento el' chegaria aqui

sábado, 7 de outubro de 2023

mistral

mostro-te um olival cheio de humor
agora é claro que é bom
agora é claro que é mau
o poema pode ser compreendido
sem os pontos de Seurat
mas poder-se-á dizer o mesmo sobre
as linhas que Van Gogh interrogou

sábado, 10 de junho de 2023

Escape

Lá onde tudo é mar sem ter fundura
talvez esteja o estômago a subir em unda maris
embalando o templo pela parte de dentro –
o dinheiro que deves, teus herdeiros que o paguem

Lá onde tudo é céu, mas sem altura
talvez em dulciana um dos pulmões se ande a expandir
embalando o templo pelo lado do verso –
o cuidar a que te obrigas, seja a vida a cumpri-lo
quem sabe se até nem existe mesmo um deus?

Lá onde tudo é 'strela sem lonjura
talvez aposte a próstata em ser digna de nazard
embalando o templo pelo prisma do negro –
esse só mais um
esse só mais este
e ainda só mais outro, o silêncio que os escreva
em sua eloquência exponencial

sábado, 4 de março de 2023

Declinação

O pulso do rapaz não coincide
com o pulso do poema

um deles somente atrai
o outro está bem localizado – qual é qual?

Para a virilidade recetáculo
o pulso é mais flor que a mão

no rapaz ou no poema –
em qual lateja o magnetismo de um quintal?

De um somente se pode asseverar
que do coração decorre

mais pulseira do que pulso
o outro – mas qual? – é a jaez de uma jaez

Consoante o caso o pulso pode ser
do poema ou do rapaz

tão-somente é taxativo
que a pulso o que eles fazem é descer

Não sei

Se escreva sobre coisa delicada
se sobre coisa rude

Até porque não sei qual é qual, qual não é
e amo a delicadeza como amo a rudeza

Não sei se escreva sobre coisa branca
se sobre coisa livre

Da brancura só sei que ela é quase clareza
do livre apenas sei que se escreve sobre o igual

Não sei se escreva
sobre coisa que não existe aqui

mas que somente aqui deveria existir
Se escreva sobre aquilo que, para aqui estar

não impõe a existência como cláusula
mas somente a nobreza ou a crueza

Não sei se escreva sobre a bétula
se sobre o vidoeiro

domingo, 16 de outubro de 2022

Linha

Não lamentes se a areia dessa escrita
aqui soa a cadeia –
não se ouve bem nos bastidores
tudo aqui chega como mera música

Tão pouco estranhes se o cabelo em pé
do belo ator que em jambo hesita
aqui chega surreal
qual penteado de espinhas tiradas a um peixe

Não pressuponhas que essa luz
já não faz pérolas do corpo estranho –
não mais que pregas vês aqui do bastidor
como se el’ fosse a imprensa

É tudo uma questão
de o gesto variar em consistência
desde o horizonte que começa a estrada
até ao ponto de ser cruz

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Contrapposto

Quando nada é falência
Quando tudo é falésia

Quando a falésia tem
do húmido a humildade

e a vertigem abarca
desde o chão, desde o teto

Quando tudo é pesar
mas o pesar não pesa

até que o corpo passe
por entre o pensamento

Quando contra o canhão
nada há que não paire

e mesmo o filho do homem
faz marcha sobre o mar

Quando a espuma é a marca
que deixa a eternidade

quando é rara e se quebra
quase como um milagre

Quando nada é mais alto
que o valor de ficar

levantado ante o vago
desenrolar do mundo

Quando tudo é falésia
Quando nada é falácia

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Aprendizagem da noite

Não sintas raiva se o sono
te obrigou a convocar
um rebanho todo negro
De noite
todos os bichos são aristocratas

Não sintas nojo dos astros
só porque
se conjugam entre si
sem assim te conjugarem
Nem toda a gente sabe a tua língua

Não sintas ciúmes do harém
de Júpiter ou Saturno
O infinito
de luares que demandas
por uma lua só pode ser dado

Etch a Sketch

            Quando é de outiva que a enxurrada é conhecida
    outro não é o conhecer quando em setembro
    (o estorno feito ao rosmaninho)
    noutro sentido é que eles vêm e eles vão

Mas nem por sombras os meus olhos de mim fazem
um qualquer homem das cavernas –
com todo o tato, em teoria, ao meu alcance
se encontra a chance de poder não contemplar

    E, todavia, continuam a mover-se
    (esses que sabem em si mesmos ter o ninho)
    indiferentes ao sentido a que o sentido
    possa levar quem diz poder não ser levado

Nessa tal feira as atrações são desmontáveis
o dia a dia pode ser monotonia – 
a todo o tempo, em teoria, ao meu alcance
se encontra a chance de poder não contemplar

    E, todavia, eles persistem numa imagem
    que se desfaz e se refaz
    (conjunto de asas em uníssono de incerto
    qual embaixada ao que no céu não é sagrado)

Pudessem eles ser a hipótese de Deus
a endurance do invisível milenar –
a todo o custo, em teoria,
se encontra a chance de poder não contemplar

sábado, 2 de julho de 2022

Uma enorme ilusão

Não serei eu Os pés soam lá fora
Pelo menos sobre isso não me engano
Continuo a fingir tocar piano
Pois sei que o passo em força se verteu

Não serei eu a ver É a vez do inglês 
Saber porque o passante se demora
Porque o passado cresce de hora em hora
Quando tudo estaria por fazer

Não serei eu a ver em sério enlace
Bodas de solidão Se não revês
Acabas por cair em distração
Se ao menos a passagem terminasse

Não serei eu a ver em sério enlace
Estorvo algum

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A posta de pescada

Só se podia arrotar deus
porque deus talvez existisse
e se existisse coisa como deus
não valeria a pena arrotar mais nada

Só se pode arrotar política
porque o Holocausto ainda existe
e se persiste coisa co' esse nome
então não vale a pena arrotar mais nada

Mas aqui estou eu a dizer
que sempre valerá a pena
arrotar toda e qualquer coisa
que já o seja antes de o ser