sábado, 14 de outubro de 2023

norte, frio, agreste

nem perto de quem fala
nem perto de quem ouve
também não de quem 'screve
nem sequer de quem lê
é o calcanhar de Aquiles (sobre quê)

falando sobre o assunto que há no assunto
digamos que ele é demasiado grave
e que é demonstrativo em demasia
(descamba fatalmente em afasia)

ah! fosse ele esdrúxulo
um Pátroclo proparoxítono
algo ridículo como o amor
e entre quem fala e quem ouve
entre quem 'screve e quem lê
entre mim e ti
como se fosse vento el' chegaria aqui

sábado, 7 de outubro de 2023

mistral

mostro-te um olival cheio de humor
agora é claro que é bom
agora é claro que é mau
o poema pode ser compreendido
sem os pontos de Seurat
mas poder-se-á dizer o mesmo sobre
as linhas que Van Gogh interrogou

sábado, 10 de junho de 2023

Escape

Lá onde tudo é mar sem ter fundura
talvez esteja o estômago a subir em unda maris
embalando o templo pela parte de dentro –
o dinheiro que deves, teus herdeiros que o paguem

Lá onde tudo é céu, mas sem altura
talvez em dulciana um dos pulmões se ande a expandir
embalando o templo pelo lado do verso –
o cuidar a que te obrigas, seja a vida a cumpri-lo
quem sabe se até nem existe mesmo um deus?

Lá onde tudo é 'strela sem lonjura
talvez aposte a próstata em ser digna de nazard
embalando o templo pelo prisma do negro –
esse só mais um
esse só mais este
e ainda só mais outro, o silêncio que os escreva
em sua eloquência exponencial

sábado, 4 de março de 2023

Declinação

O pulso do rapaz não coincide
com o pulso do poema

um deles somente atrai
o outro está bem localizado – qual é qual?

Para a virilidade recetáculo
o pulso é mais flor que a mão

no rapaz ou no poema –
em qual lateja o magnetismo de um quintal?

De um somente se pode asseverar
que do coração decorre

mais pulseira do que pulso
o outro – mas qual? – é a jaez de uma jaez

Consoante o caso o pulso pode ser
do poema ou do rapaz

tão-somente é taxativo
que a pulso o que eles fazem é descer

Não sei

Se escreva sobre coisa delicada
se sobre coisa rude

Até porque não sei qual é qual, qual não é
e amo a delicadeza como amo a rudeza

Não sei se escreva sobre coisa branca
se sobre coisa livre

Da brancura só sei que ela é quase clareza
do livre apenas sei que se escreve sobre o igual

Não sei se escreva
sobre coisa que não existe aqui

mas que somente aqui deveria existir
Se escreva sobre aquilo que, para aqui estar

não impõe a existência como cláusula
mas somente a nobreza ou a crueza

Não sei se escreva sobre a bétula
se sobre o vidoeiro

domingo, 16 de outubro de 2022

Linha

Não lamentes se a areia dessa escrita
aqui soa a cadeia –
não se ouve bem nos bastidores
tudo aqui chega como mera música

Tão pouco estranhes se o cabelo em pé
do belo ator que em jambo hesita
aqui chega surreal
qual penteado de espinhas tiradas a um peixe

Não pressuponhas que essa luz
já não faz pérolas do corpo estranho –
não mais que pregas vês aqui do bastidor
como se el’ fosse a imprensa

É tudo uma questão
de o gesto variar em consistência
desde o horizonte que começa a estrada
até ao ponto de ser cruz

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Contrapposto

Quando nada é falência
Quando tudo é falésia

Quando a falésia tem
do húmido a humildade

e a vertigem abarca
desde o chão, desde o teto

Quando tudo é pesar
mas o pesar não pesa

até que o corpo passe
por entre o pensamento

Quando contra o canhão
nada há que não paire

e mesmo o filho do homem
faz marcha sobre o mar

Quando a espuma é a marca
que deixa a eternidade

quando é rara e se quebra
quase como um milagre

Quando nada é mais alto
que o valor de ficar

levantado ante o vago
desenrolar do mundo

Quando tudo é falésia
Quando nada é falácia

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Aprendizagem da noite

Não sintas raiva se o sono
te obrigou a convocar
um rebanho todo negro
De noite
todos os bichos são aristocratas

Não sintas nojo dos astros
só porque
se conjugam entre si
sem assim te conjugarem
Nem toda a gente sabe a tua língua

Não sintas ciúmes do harém
de Júpiter ou Saturno
O infinito
de luares que demandas
por uma lua só pode ser dado

Etch a Sketch

            Quando é de outiva que a enxurrada é conhecida
    outro não é o conhecer quando em setembro
    (o estorno feito ao rosmaninho)
    noutro sentido é que eles vêm e eles vão

Mas nem por sombras os meus olhos de mim fazem
um qualquer homem das cavernas –
com todo o tato, em teoria, ao meu alcance
se encontra a chance de poder não contemplar

    E, todavia, continuam a mover-se
    (esses que sabem em si mesmos ter o ninho)
    indiferentes ao sentido a que o sentido
    possa levar quem diz poder não ser levado

Nessa tal feira as atrações são desmontáveis
o dia a dia pode ser monotonia – 
a todo o tempo, em teoria, ao meu alcance
se encontra a chance de poder não contemplar

    E, todavia, eles persistem numa imagem
    que se desfaz e se refaz
    (conjunto de asas em uníssono de incerto
    qual embaixada ao que no céu não é sagrado)

Pudessem eles ser a hipótese de Deus
a endurance do invisível milenar –
a todo o custo, em teoria,
se encontra a chance de poder não contemplar

sábado, 2 de julho de 2022

Uma enorme ilusão

Não serei eu Os pés soam lá fora
Pelo menos sobre isso não me engano
Continuo a fingir tocar piano
Pois sei que o passo em força se verteu

Não serei eu a ver É a vez do inglês 
Saber porque o passante se demora
Porque o passado cresce de hora em hora
Quando tudo estaria por fazer

Não serei eu a ver em sério enlace
Bodas de solidão Se não revês
Acabas por cair em distração
Se ao menos a passagem terminasse

Não serei eu a ver em sério enlace
Estorvo algum