sábado, 2 de setembro de 2017

era em zero criança só
que mãos suas cem viu e quis
para que é que saber serviam
e das fricções cem

cem cintilações
fez acontecer
foi antes da limpeza azeda
do de ordem ensinado anseio

cintilavam então centelhas
mero meramente
sua revelando

essência tangente
criança a no vazio quarto
ser era e mudança

a neve

cada vez
que a lâmina
velha
da Primavera
percorre a espuma invernal
repete-se o medo egoísta
de que sob o branco acídulo
já nada exista

a chuva

encontrar
uma palha transcendente
neste agulheiro

e coser
com uma lã imanente
o céu à terra


***

o céu cai em catarata
mas a erosão da evidência
trabalho de ar
muda a inútil queda de água
em tear


***

a criança põe questões:
“é possível
pegar em toda esta chuva
e fazer dela novelo
irreversível?”

o combate

tique
um general do cimo da página pergunta
“estamos nós no meio da guerra
ou no meio da paz”
?

(lerás no leite)
(lerás no linho)
(lerás na fronteira da íris)
(lerás na página por escrever)
(nos alpes
onde
branca de neve e malcolm x...
quando
madame *** tocava em seu piano)
(no quadro da sala de aula)
um general por dentro da página pergunta
“estamos sós no seio da terra”
?

taque

não sabíeis vós pois que se escreve poesia
para incitar a guerra que tem de ser incitada
e
encerrar a guerra que tem de ser encerrada
o combate num fechar e abrir de olhos
o combate imaginado encenado
ensinado encantado plural
o combate eterno
interno
terno

a viagem

malas mais malas e mais malas muitas
levamos sempre quase tudo
e quase nunca
“peço desculpa este comboio vai
para

onde”
?
“o comboio não sei, a carruagem
segue para lisboa
confira a carruagem

seguinte”
quase tudo:
um só pão
e a magnólia de daniel
o momento da fuga em plena noite
uma estrela esculpida em forma de hora
um anjo para todos os serviços
co’a voz numa caixinha negra
e um álbum de premonições

valas mais valas e mais valas incomuns
onde jazem os beijos por beijar
de onde se erguem palavras vez em quando
e vez em onde
“peço desculpa a carruagem vai
para

onde”
?
“isso não sei, só sei que o meu lugar
vai p’ra paris ou praga ou moscovo”
“e o meu lugar p’ra o mar vermelho”
“e o meu para o deserto”
“o meu
o meu lugar vai para o centro da romã”

quase nunca:
um só pão
um só peixe
alegria num floco de vinho
a fórmula da infância
a chave do reino do sono
a laranjeira do gato
e um cimo

falas mais falas e mais falas vez em vez
e quando em onde
não parece imundo o mundo
quando passa assim depressa
na janela
verde verde roxo-branco
branco branco negro-azul
chuva chuva na vidraça
e sempre o mesmo pensamento
tens de ir para onde o verbo vai
e o verso

...................cai
na primeira paisagem
eu vi
cardumes de fogo
abrindo uma excepção
na maré viva de pinheiros
e servindo pois de refeição
a regimentos inteiros de deuses
perenes como a história da água
caducos quais faúlhas de uma nuvem
na segunda paisagem
pressenti
um trapo de vidro tinto
uma água de verde sal
e um sol de ninguém
hasteados sobre derrotas do tempo
derrotas do espaço
e histórias sem herói
na terceira paisagem
vi senti e pressenti
as lágrimas inférteis de minha mãe
o sopro já extinto de meu pai
“peço desculpa este lugar para onde

vai”
...........................................?
“o lugar não sei, o meu olhar
segue para a fronteira do relógio
para o passe-partout segue o meu rosto
viaja a minha mão para o rubi
p’ra o cravo o coração leva o seu eco
na direcção do sangue envio o sexo
e o corpo nu inteiro
à toa sem roteiro
viaja até ao
livro
mas o senhor, para onde deseja ir”
....-----.......................................!

“eu quero ir
para onde toda a gente
vai”

Estrelas-do-mar são saudade
Dos astros que brilham no céu
Igualmente a morte dos homens
Só tem forma de eternidade
Leva uma senhora
Um céu privado entre a chuva
Que cai p’ra ninguém