quinta-feira, 13 de junho de 2019

Carta a um jovem poeta

Gosto muito da palavra ninharia
Gosto de pensar que é um lar
para o guarda-rios e a cotovia
esses seres tão colossais
no seu desdém pelo intricado

Também gosto da palavra bagatela
com suas bagas que sabem tirar
o vermelho da boca da noite
Mas desta palavra gosto com discrição
pela outra tenho um fraquinho

Diz-se que os poetas são estúpidos
porque falam de flores e de pássaros
quando no mundo algo se passa
de exatamente intolerável

Mas os poetas apenas falam
daquilo que lhes coube em tragédia
a partir da palavra ninharia
a partir da palavra bagatela

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

F for Friend

Soube noutro dia
que o rio célere
de que celebremente fala uma canção
não é mesmo um rio na lua

Mas quem
a não ser um rio que corresse na lua
aceitaria eu tratar
por huckleberry friend?

É como se ao ouvir
os vocábulos corretos
eu lesse num karaoke
sentidos mais insurretos

Basta um pequeno-almoço no Iémen
para que mesmo o que se vende na Tiffany’s
brilhe como uma fraude
Mesmo a poesia

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Fahrenheit

Até chegar a este poema
tive direito a 16872 sóis
nem menos
nem mais

Mas terei cumprido o dever
de ir somando todas essas possibilidades
todas essas temperaturas
até chegar ao valor
que fará das erínias euménides

quando vierem queimar a forma com que pude ser?

sábado, 15 de setembro de 2018

Le parti pris de l'ornement


Todo o tempo do mundo

Terei um cuidado extremo com o azul
afinal, ele é sangue do céu
e progressão harmónica do mar
ele irriga o vergel de arabescos
em torno das duas grandes colunas
doridas e douradas até às medulas
terminadas em trilos de vagalume
e ligadas por trave-sem-mestria
por cima da qual Etty atira
a brancura de alguns papéis
que o andamento lento da história
acabará por escrever e assinar

Terei um cuidado extremo
com a primeira letra
aquela que em silêncio define
aquele que acaba ao matar

terça-feira, 31 de julho de 2018

Fake news


Uma lua vermelha há de ser
uma coisa bonita
sobretudo quando ela vai ser

a mais bonita lua vermelha
do século todo
que há de correr

Mas não o há de ser assim
quando aparece como promoção
a não perder no relógio da vida

Há de ser lua
há de ser vermelha
e há de ser bonita

a coisa qualquer
que por acaso
e sem se prever

se detenha
única em seu silêncio
entre mim e outro ser

domingo, 29 de julho de 2018

Tema e variações


Todo o homem deve plantar uma árvore
ter um filho
e escrever um livro de amores contrariados

Mas na verdade o que importa
é que ele escolha a dedo
os imaginários onde decorrem esses contrários


Que seja, por exemplo, um mundo em que os corpos têm a consistência dos vitrais. Quando, sob um sol sem misericórdia, vêm desenlaçar os amantes, os corpos destes projetam no chão a transição de Rothko para Pollock.

Ou então um mundo em que os corpos, em vez de serem contextos de átomos, são-nos de bichos pequenos, e assim também pequena é a diferença entre fazer sexo ou amor: só se troca vagalumes por libelinhas, ou joaninhas por mariposas.

Ou ainda um mundo em que os corpos se comportam apenas como canções, e por isso, mesmo quando apartados, subsistem em loop nas bocas uns dos outros…

O que importa é escolher a ramo

Todo o homem deve ser uma árvore
genealógica
ou não

Vaivém relativo


Temos todos cá no âmago
um pêndulo de Foucault que
prova sem ambivalência
o desejo em rotação

Uns provam bem mais do que outros
e diz-se que alguns existem que
ao arrepio das leis do universo
só conhecem a translação